quarta-feira, agosto 25, 2010

E p i t á f i o

Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer.
Devia ter arriscado mais e até errado mais, ter feito o que eu queria fazer.
Queria ter aceitado as pessoas como elas são.
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração.
O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído.
Devia ter complicado menos, trabalhado menos, ter visto o sol se pôr.
Devia ter me importado menos com problemas pequenos, ter morrido de amor.
Queria ter aceitado a vida como ela é.
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier.
O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído.
O acaso vai me proteger enquanto eu andar .

Por Sérgio Britto

segunda-feira, agosto 16, 2010

Sotaque Mineiro

O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar, sensual e lindo (das mineiras) ficou de fora. Porque, Deus, que sotaque! Mineira devia nascer com tarja preta avisando: ouvi-la faz mal à saúde. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso? Assino achando que ela me faz um favor. Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma. Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só pelo sotaque. Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas. Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem: pode parar, dizem "pó parar”. Não dizem “onde eu estou?”, dizem “oncotô?).

Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem - lingüisticamente falando - apenas de uais, trens e sôs. Digo-lhes que não. Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade. Fala que ele é bom de serviço. Pouco importa que seja um juiz, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô. Se der no couro - metaforicamente falando, claro - ele é bom de serviço. Faz sentido... Mineiras não usam o famosíssimo “tudo bem”. Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra: "cê tá boa?" Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela tá boa é desnecessário.

Há outras. Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada. Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: - Mexe com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc). O verbo "mexer", para os mineiros, tem os mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar. Se lhe perguntarem com o que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu ofício. Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue nada. Você não dá conta. Sôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo, você liga e diz:- Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não, sô. Esse "aqui" é outro que só tem aqui. É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública, de qualquer frase. É mais usada, no entanto, quando você quer falar e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer, olá, me escutem, por favor. É a última instância antes de jogar um pão de queijo na cabeça do interlocutor.

Mineiras não dizem "apaixonado por". Dizem, sabe-se lá por que, "apaixonado com". Soa engraçado aos ouvidos forasteiros. Ouve-se a toda hora: "Ah, eu apaixonei com ele...". Ou: "sou doida com ele" (ele, no caso, pode ser você, um carro, um cachorro). Elas vivem apaixonadas com alguma coisa. Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe. É um tal de bonitim, fechadim, e por aí vai. Já me acostumei a ouvir: "E aí, vão?". Traduzo: "E aí, vamos?". Não caia na besteira de esperar um “vamos” completo de uma mineira. Não ouvirá nunca.

Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira. Nada pessoal. Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas. Por exemplo: em Minas, se você quiser falar que precisa ir a um lugar, vai dizer: - Eu preciso de ir. Onde os mineiros arrumaram esse "de", aí no meio, é uma boa pergunta. Só não me perguntem. Mas que ele existe, existe. Asseguro que sim, com escritura lavrada em cartório. Deixa eu repetir, porque é importante. Aqui em Minas ninguém precisa ir a lugar nenhum. Entendam... Você não precisa ir, você "precisa de ir". Você não precisa viajar, você "precisa de viajar". Se você chamar sua filha para acompanhá-la ao supermercado, ela reclamará: Ah, mãe, eu preciso de ir?

No supermercado, o mineiro não faz muitas compras, ele compra um tanto de coisa. O supermercado não estará lotado, ele terá um tanto de gente. Se a fila do caixa não anda, é porque está agarrando lá na frente. Entendeu? Agarrar é agarrar, ora! Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará: - Ai, gente, que dó.

É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras. Não vem caçar confusão pro meu lado. Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro "caça confusão". Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele “vive caçando confusão”. Para uma mineira falar do meu desempenho sexual, ou dizer que algo é muitíssimo bom vai dizer: "Ô, é sem noção". Entendeu, leitora? É sem noção! Você não tem, leitora, idéia do tanto de bom que é. Só não esqueça, por favor, o "Ô" no começo, porque sem ele não dá para dar noção do tanto que algo é sem noção, entendeu?

Capaz... Se você propõe algo ela diz: capaz !!! Vocês já ouviram esse "capaz"? É lindo! Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer "cê acha que eu faço isso!?" com algumas toneladas de ironia.. Se você ameaçar casar com a Gisele Bundchen, ela dirá: "ô dó dôcê". Entendeu? Não? Deixa para lá. É parecido com o "nem...". Já ouviu o "nem..."? Completo ele fica: -Ah, nem... O que significa? Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum. Você diz: "Meu amor, cê anima de comer um tropeiro no Mineirão?". Resposta: "nem..." Ainda não entendeu? Uai, nem é nem. Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?

A propósito, um mineiro não pergunta: "você não vai?". A pergunta, mineiramente falando, seria: "cê não anima de ir"? Tão simples. O resto do Brasil complica tudo. É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem... Falando em "ei...". As mineiras falam assim, usando, curiosamente, o "ei" no lugar do "oi". Você liga, e elas atendem lindamente: "eiiii!!!", com muitos pontos de exclamação, a depender da saudade... Tem tantos outros... O plural, então, é um problema. Um lindo problema, mas um problema. Sou, não nego, suspeito. Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras. Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão. Se você, em conversa, falar: Ah, fui lá comprar umas coisas...- Que' s coisa? – ela retrucará. O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que. Ouvi de uma menina culta um "pelas metade", no lugar de "pela metade". E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa, confidenciará: - Ele pôs a culpa “ni mim”.

A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios, em Minas... Ontem, uma senhora docemente me consolou: "preocupa não, bobo!". E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem se espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: "não se preocupe", ou algo assim. A fórmula mineira é sintética. E diz tudo. Até o tchau em Minas é personalizado. Ninguém diz tchau pura e simplesmente. Aqui se diz: "tchau procê", "tchau procês". É útil deixar claro o destinatário do tchau.

Por Felipe Peixoto Braga Neto
Indicado por Marcelo Barbosa

quinta-feira, agosto 12, 2010

Que seja eterno?

O amor já deu certo. Dá certo. A questão é que – como tudo na vida – o bom e o ruim, ambos passam. Que seja eterno enquanto dure. Fica então a memória do que é um presente. Do que é nosso. Do que vivemos. E, é claro, a possibilidade de viver outro e mais outros amores enquanto existirmos…

Fica a oportunidade de tudo reviver. De enlouquecer por e para outro. Mudar tudo na vida, reorganizar os horários, rever o que fizemos e gostamos até então e depois incluir. Incluir novos ritmos, novos interesses, novos gostos. Trazer para perto tudo aquilo que duvidamos ser capazes de ousar fazer e – arrebentar!

Rir, chorar, gritar – tudo isso faz o amor. Aquele medo que nos faz estremecer, o qual não sabemos nem descrever se é de prazer ou terror… Nada, nada importa quando estamos assim, LOUCOS. LOUCOS DE AMOR. LOUCOS PELO OUTRO. LOUCOS PELA VIDA.

Nesse estado de graça, o tempo parece ganhar outra lógica. Caso estamos perto, passa rápido demais. Caso estamos longe, parece se alongar demoradamente… Sofremos com a distância… Sofremos com a presença – porque a sensação é de nos fundirmos com o outro. Decorar seus traços, seus abraços, seu sorriso. Somos só um.

Contagiamos, queremos ver todos de bem! Evocamos por isso os amigos, os que estão no nosso entorno. Os convidamos a amar encontrar-se, encontrar outro. Queremos que a nossa felicidade se expanda. Fazemos cara de bobos. Escrevemos cartas – agora nos novos tempos – e-mails, sms, tuitamos todo o tempo a nossa glória.

Entrega

Somos INVENCÍVEIS! E assim deve mesmo ser quando nos entregamos de corpo, alma, mente ao novo ser. À nova relação. Aqueles que estão amando sabem do que estou falando. Conhecem a sensação de querer voltar a ler poesias, escrever poemas, falar sobre e do amor, ouvir canções românticas, caminhar como se houvessem nuvens em vez de sapatos em nossos pés cansados.

Relaxar… Falar sozinho, rir do nada, emocionar-se com um pôr do sol, uma lua cheia, um céu de estrelas… O amor nos faz também poetas, seguros e inseguros…

E se afinal não existe vida sem amor – como afirmava Gabriel García Márquez –, que então seja eterno enquanto dure, replica o poeta Vinicius.

Resgate

O amor nos resgata dentro da nossa humanidade. Faz-nos tão bem que desperta o que temos de melhor. Acorda nossa energia, nos faz existir. É verdade que também nos expõe, parecer tolos, eternos adolescentes em busca de casa… Mas e daí?

O que acrescenta é tão positivo que o que eu quero mesmo é morrer assim – amando! Estar com o outro, falar o que vier na cabeça, sem se preocupar com verdades, mentiras – falar porque faz bem, constrói intimidade, amizade, nos faz um e outro mais íntegros, completos, amantes.

Tudo isso é amar. Fique irradiante. Essa energia também é sua. Vá para a vida. Abra-se para o novo. Experimente novas possibilidades. Outros amores. O tempo passa muito depressa para nos deixar abandonar. As relações podem ou não dar certo e depois que terminaram não há muito a fazer a não ser seguir caminhando. Olhar para frente!

Há pessoas que acreditam em um único amor para uma única vida. E, então, se são bem sucedidas, ótimo – vivem uma relação perene e duradoura cheia de amor, amizade e felicidade. Mas se perdem esse parceiro, fecham-se para a existência toda, almadiçoam o outro, a vida, a sobrevida…

Penso diferente. Em minha opinião, amores vêm e vão – há aqueles para uma vida; há outros para uma história. Amar é, por isso, viver o presente, é liberdade de redescobrir-se a todo o tempo, descobrir o outro. O que ficou passou… O amor da minha vida é aquele que está comigo agora.

E, para este, não é preciso preocupação com qualquer ex-fantasma, com qualquer recaída, com qualquer tristeza… Dos amores já vividos ficaram somente lembranças. Para os amores vindouros, toda minha intensidade, todo meu amor…

Por Sandra Maia
Indicado por Fernanda Goulart

domingo, agosto 08, 2010

Sinto saudade sua ate sem te conhecer...

"a gente finge
mas sabe que não é verdade
foge ao vazio
enquanto brinda, dança e salta
eu trago-te comigo
e sinto tanto, tanto a tua falta
foge ao vazio
enquanto bebe, dança e ri
eu trago-te comigo
e guardo este abraço só para ti"

Sinto saudade sua ate sem te conhecer...